por Bruno Oliveira
Eu
dormi muito mal naquela noite em que uma editora da Dinamarca havia me proposto
trabalho. Era cedo, bem cedo. Fui tomar café da manhã e vi minha
mãe na cozinha. Cheguei perto dela, dei um beijo e disse que queria fazer
o curso. Ela ficou um pouco assustada, aceitou e sorriu.
Nós dois nos sentamos à mesa. Ela percebeu que
eu não parava de sorrir. Não tinha outro jeito de dizer. Então
foi como foi:
“Mãe, uma editora da Dinamarca quer que eu faça
um trabalho pra eles”.
Ela me olhou com os olhos arregalados. Eu notava tudo que é
expressão positiva naqueles olhos e sorriso.
Saí da mesa e fui pro computador imprimir o que eu teria
que desenhar como “teste”. Eu já tinha salvado os arquivos
na noite anterior. Eu tinha internet discada, então pra ver e-mails e
espalhar a notícia só depois da meia noite!
Comecei a desenhar, fiquei empolgado, mas me sentia pressionado.
Eram 4 da tarde quando acabei tudo. Scaneei os desenhos e salvei.
Eu não tinha gostado, eles pareciam amadores demais. O mais estranho
é que só reparei nisso quando já estavam prontinhos pra
serem enviados.
Dei
uma revisada neles e resolvi refazer tudo. Acabei mais rápido dessa vez,
e ficou bem melhor, pois eu estava me divertindo, esqueci da pressão.
Acabei e adorei o resultado.
Em seguida peguei o telefone da Quanta (que eu já tinha
anotado há meses) e fui ligar pra fazer minha matrícula. Eu tava
tremendo, que estranho.
Tava chamando...
“Alô”, uma voz empolgada do outro lado atendeu.
Putz, que nervosismo. Eu estava falando lá... então...
desliguei o telefone!! Meu, na cara da pessoa!! Um rapaz empolgado, alegre,
feliz... e eu desliguei na cara do indivíduo!!
Ah, eu ligo depois!! Tava foda me concentrar, ia acabar falando merda. Que mancada,
ligar numa escola e desligar na cara do atendente.
O telefone tocou, era meu pai.
“Oi, pai, tudo bem?”.
“Tudo filho, como está tudo por aí?”.
“Tá tudo legal! Escuta, resolvi fazer o curso
da forma que você propuseram”.
“Ah... mesmo, filho? Que legal, hein? “.
“É”.
E foi basicamente isso.
Desligamos
o telefone e de repente eu me sentia corajoso!
Liguei na Quanta. O mesmo indivíduo alegre atendeu.
Ele não estava abalado por eu ter desligado. Isso era bom.
Minutos depois... Uau, estava feito!! Eu estava matriculado!!
As aulas começariam em Março.
Chegou meia noite, enviei os novos desenhos. Era esperar a
resposta
E assim foi.
Chegou a sexta-feira antes da aula (que era no sábado).
Minha mochila já estava preparada, a passagem devidamente comprada. Até
aquele dia, nenhuma notícia da editora Dinamarquesa...
Minha mãe: “Ok, vamos recapitular o que você
vai ter que fazer”.
“Ah, de novo, mãe?”.
“Vai”.
“Ta
bom. Saio daqui às 23:30, chego em São Paulo às 7:30 no
ábado, te ligo avisando que cheguei, pego o metrô e vou pra Quanta”.
Ah, era tranqüilo... tá certo que eu nunca tinha
ido sozinho pra lá, mas que dificuldade eu teria???
Eram 2 da manhã... O pneu do ônibus furou.
Ah, um pequeno azar, pra descontrair apenas... Não é?
Cheguei em São Paulo atrasado... Ah, só mais
um contratempo, não?
Não. A rodoviária se mostrava uma selva completamente
hostil pro mineirinho aqui... E agora? Bem, isso é história pra
próxima coluna.
Até o próximo episódio.
NE: As imagens que ilustram o texto são de Bruno
Oliveira para a dinamarquesa Cool Comics.
Leia também: Concretizando
- Parte 1
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