por Bruno Oliveira
Tava
tudo meio estranho, tudo indefinido. Eu tomei um tombo absurdo. Eu sempre
quis ir estudar na Quanta!! Eu sabia que eu seria guiado ao que eu queria
se eu pudesse conversar diretamente com tantos profissionais que faziam sucesso
no mercado em que eu queria estar.
Chegou 2004. Tava tudo maluco, sem rumo... Eu tava perdido
mesmo. Como sempre, continuava enviando meu material pra várias editoras
pelo mundo afora através da internet. Raramente tinha resposta.
Numa noite, eu e minha família saímos para jantar!
Ainda não tínhamos conversado sobre o que eu faria da minha vida.
?E então, filho? O que você pretende fazer
agora? O mais importante é ficar tranqüilo e analisar com cuidado
todas as possibilidades. O que você quer??.
Eu pensava com cuidado. Afinal, o que eu queria? Eu queria
desenhar. Será que Artes era o curso mais indicado? Eu, com 18 anos,
acreditava que não. Eu queria estudar quadrinhos!
?Eu quero estudar mais sobre quadrinhos, numa boa escola?.
?Tudo bem, filho! E qual faculdade ensina quadrinhos??.
?Bom,
nenhuma, mas tem a Quanta, sabe? Eu podia estudar lá?.
?Sim, mas qual faculdade enquanto você estuda na
Quanta??.
Eu não queria faculdade nenhuma. Eu queria me dedicar
exclusivamente a desenhar.
?Não, fora de cogitação você
fazer só isso. E um curso superior? Sem diploma, não!?.
A discussão continuou e quando me dei conta, estávamos
praticamente gritando dentro do restaurante.
Quando saímos, estávamos calados. Estávamos tensos. Eu
pensava o que estavam pensando de mim.
Que eu era um preguiçoso? Que eu queria o ?caminho mais fácil?.
Chegamos em casa e tava tudo parado no tempo, tudo muito bizarro.
Eu sempre estive acostumado a conseguir as coisas desde que eu as quisesse...
Bom, eu queria quadrinhos. Eu não ia deixar de fazer isso, não.
Então, em mais uma discussão, dias depois com
minha família, eu propus estudar quadrinhos por dois anos na Quanta e,
se eu não estivesse trabalhando, eu faria um cursinho, faria faculdade,
tudo certinho.
Minha mãe ligou pro meu pai e os dois conversaram seriamente.
Ela saiu do telefone me dizendo que eles concordavam em pagar
o curso pra mim na Quanta. Eu não podia ficar mais alegre, mas sabia
que tinha mais alguma coisa por vir...
?A gente não pode te sustentar em São Paulo...
simplesmente, no momento não podemos?.
Eu fiquei imaginando como eu iria estudar em São Paulo
sem estar em São Paulo (moro em Uberlândia).
Até
que meu pai disse que, se eu realmente queria, eu iria conseguir ir todos os
finais de semana para estudar lá. Era loucura, uma forma (a meu ver)
de me fazer desistir.
Eu fui dormir naquela noite, sonhando muito. Eu não
tinha passado em provas de habilidade, o que significa que eu não tinha
nem capacidade pra entrar num curso que ensina a desenhar. Quem diria trabalhar
com isso. Não, não ia dar. Eu não tinha confiança
o suficiente pra isso.
De manhã, fui checar meus e-mails. Uma editora tinha
me respondido. Era a Cool Comics, da Dinamarca. Eu nem me empolguei, porque
eu recebia vários e-mails de editoras dizendo: ?Me desculpe, mas
não é o que procuramos no momento?.
Abri o e-mail que dizia:
?Bruno, seu material é muito bacana. Precisamos lapidar algumas
coisas, mas estamos interessados. Faça esboços do personagem que
envio em anexo e me mande?
Eu estava extasiado!!! Pulei da cadeira. Estava sozinho em
casa, comecei a gritar, dando murros na parede.
Sentei no chão... sozinho, comecei a chorar... dessa
vez, de imensa alegria.
Eu dava gargalhadas absurdamente altas.
Era o sinal que eu precisava, a confiança que eu buscava.
Fui mais uma vez conversar com minha mãe e disse que
eu queria fazer o curso. Durante um ano, no mínimo, eu iria todas as
sextas pra São Paulo, chegaria no sábado e voltaria depois da
aula, chegando em Uberlândia ainda sábado à noite.
Todo mundo meio assustado, mas iria dar certo.
Eu começaria a estudar na Quanta em Março de
2004.
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