Depois de nove horas de viagem, estava eu novamente na dura realidade Uberlandense na qual a rotina de ir à escola todos os dias aprender coisas (aparentemente) de pouca utilidade se tornava um tédio absoluto. Era impossível voltar a ter o mesmo tipo de mentalidade tendo passado por tal experiência (num futuro próximo) ?Quântica?.
Eu desenhava mais do que nunca! Durante as aulas, intervalos, quando chegava em casa e até mesmo em guardanapos no restaurante. Claro, como qualquer desenhista (iniciante ou profissional), pouca coisa me agradava no meu desenho. Lembrando de tanta gente que desenhava super bem na Fábrica, senti que estava atrasado pra caramba! Eu precisava correr. Eu não tinha ?acesso? mas isso não podia me impedir. Quando impedia, era só lembrar dos famosos autodidatas: Roger Cruz, Octavio Cariello, Marcelo Campos e mais uma porrada!
O tempo passou. Eu estava crescendo. Toda a pressão ?vestibulística? me atingia agora. Ninguém falava mais nada além de PAIES, um vestibular seriado, dividido em 3 provas anuais pra se entrar na Universidade federal de Uberlândia, a UFU.
Minha vontade pra ir pra São Paulo era praticamente palpável. Eu não me importava muito com os vestibulares daqui. Queria estar lá!! São Paulo!! Aí seria muito mais fácil!! (minha mentalidade... pobre coitado). Meus pais tinham um pouco de grana, mas não daria para estar em São Paulo, morando sozinho e fazendo faculdade particular. Teria que ser as "públicas". Resolvi que ia entrar na USP ou UNESP.
O terceiro colegial chegou. É engraçado, mas eu costumo colocar na cabeça que quero uma coisa e não importando como, eu iria conseguir. Claro que isso nem sempre dá certo (aliás, raramente dá certo) mas sempre foi meu jeito de visualizar tudo.

Eu queria estudar na já chamada Quanta Academia de Artes. Lá, Octavio Cariello e Marcelo Campos (separados da Fábrica de Quadrinhos) davam aulas junto com Greg Tocchini, Roger Cruz, Ivan Reis, Caribé, Davi Calil, Weberson e mais um monte de gente (não esquecendo da sempre gentil Cris Fernandes coordenando tudo). Minha única chance seria mesmo fazendo faculdade lá.
Estava tão confiante que conseguiria passar no curso de Artes (que não tinha uma nota de corte muito alta) que não estudei praticamente nada da parte ?prática?. Me concentrei na teoria. Nossa, como era chato (hoje acho mais legal)! Semana de 22, todo aquele grupo Modernista. Eu tinha que aprender.
O dia do vestibular chegou rápido. Para minha felicidade, já não havia mais possibilidade de eu estudar em Uberlândia uma vez que a prova de habilidade da Unesp coincidia com a última etapa do PAIES (eu já tinha feito as duas primeiras etapas, para entrar no curso de Artes em Uberlândia faltavam somente uns 6 pontos de uns 40 que eram distribuídos na última etapa) e o vestibular regular da UFU viria depois da divulgação dos resultados da Fuvest e Vunesp (o que significa que, como eu iria passar, não precisaria nem prestar aqui na cidade).

Estava em São Paulo. meu Deus, como essa cidade me fascinava. Como me fascina! Fiquei em um hotel que um laboratório médico cede à minha tia Solange, que é psiquiatra.
Na noite anterior ao vestibular, li os resumos que eu tinha feito sobre Modernismo, Construtivismo Russo e tudo mais. Fui confiante fazer a prova. O campus da USP era enorme. E muito bonito. Comecei a ficar nervoso.
Que saco, ficar nervoso nunca ajuda. Ah, quer saber? Eu sei a matéria, eu sei desenhar. Fiz a prova.
Que cansativo. Que prova abstrata.
Confiança!!
Eu tinha que esperar o resultado. Se me lembro bem, saía algumas semanas antes da prova da Vunesp.
Estudei até chegar o dia. Entrei na Internet. O site estava carregado. Que demora.
Finalmente, a lista dos aprovados.
E o meu nome não estava lá.
Eu não sabia o que sentir direito. Fiquei decepcionado. Incrivelmente envergonhado. Comecei a chorar. Gritei muito, chorei mais, gritei mais. Lavei o rosto. Me olhei no espelho e a vergonha voltou. Tomei um banho... que dia horrível.
Quando me acalmei, lembrei que ainda tinha uma chance. A Vunesp.

Estudei muito novamente toda a parte teórica e, para a prova prática, peguei aulas com uma professora de Artes Plásticas da região que dava aula em uma faculdade em Uberaba!
Minha confiança tinha voltado. Eu sabia cada detalhe do programa do vestibular.
Mais um vestibular chegou. Eu tinha aprendido a não ficar tão confiante. Dessa vez, me hospedei num hotel próximo à estação Paraíso.
Mais uma vez, na noite anterior estudei bastante enquanto minha mãe assistia alguma coisa na televisão. Eu estava confiante. Mas não queria demonstrar isso. Era minha última chance de estar perto de todo mundo que poderia me ensinar. O curso de Artes da faculdade seria muito bom, mas a idéia de estudar com os grandes profissionais dos quadrinhos me empolgava mais.
Cheguei no local de prova. Com um beijo na testa, minha mãe desejou boa sorte. Acabei a prova. Agora era esperar. Não tinha mais nada que eu pudesse fazer. Se todo esforço é recompensado, eu conseguiria.
Dessa vez, muito mais gente prestava atenção ao ?desenhista? da família! Eu não me sentia muito confortável com a atenção.
O resultado estava na Internet. Eu, minha tia Solange, minha mãe e minha irmã fomos olhar.
E eu não passei.
Era isso. Todas as chances de ir para São Paulo se esgotaram.
Bruno Oliveira
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