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O Sonho - Parte 1
© Bruno Oliveira

Minha mãe é professora e meu pai médico. Desde pequeno, vivi rodeado de HQs e revistas em geral. Isso porque ambos (pai e mãe) gostam muito de ler. Meu pai chegou a gostar muito de Turma da Mônica e O Fantasma. Minha mãe lia mais Mônica e outras revistas que não fossem quadrinhos. Além das revistas, tinha um armário entupido de livros de tudo que é tema. De ?Leitura Rápida e Memorização? a ?Biografia de Thomas Edison?, além de outros tantos romances.

Não me lembro de ser obrigado a ler. Nem livros nem HQ?s. Ninguém nunca me forçou a ler alguma coisa. Eu lia o que queria.

Eu não me lembro como comecei a desenhar, mas sei que decidi que queria trabalhar com isso por volta dos 11, 12 anos. Eu não tinha noção alguma do mercado, mas eu simplesmente queria fazer aquilo. Eu desenhava Homens-Aranhas e Wolverines em tudo que é canto (nunca consegui desenhar a turma da Mônica) e, acho que sonhava em fazer aquilo. Mas eu já tinha noção que as revistas eram feitas pelos EUA, beeem longe do país que eu nasci.

Quando estava na 5a Série (mais uma vez, por volta dos 11 ou 12 anos), meu professor de Matemática, Vicente, me pegou desenhando depois que acabei alguns exercícios e me mandou guardar os desenhos. Não foi por querer, mas eu não ouvi. Ele chegou perto, olhou meus desenhos e perguntou o que era aquilo. Eu, que era muito, muito tímido não consegui responder. Não consegui nem falar que já tinha acabado os exercícios e que, por isso estava desenhando. Ele pegou os desenho e colocou embaixo da carteira. Não sei se ele estava mais nervoso que o normal ou o quê, mas lembro que ele perguntou se eu planejava fazer aquilo por muito mais tempo antes de fazer algo realmente útil dentro da sala de aula.

5a Série... Bom, é de se esperar que todo mundo desse risada. E não foi diferente. Fiquei morrendo de vergonha. Voltei pra casa e... fui desenhar.

Depois desse evento eu já não pensava mais tanto em trabalhar com quadrinhos, afinal se um adulto formado tinha me dito que era perda de tempo, por quê eu iria continuar? Hoje me pergunto se, caso tivesse contado isso pros meus pais na época, eles teriam me encorajado a continuar desenhando ou desistir de vez? Não sei.

Eu moro em Uberlândia, então encontrar alguém que goste disso como eu gostava era bem raro. Outro evento marcante foi na escola, na 7a Série. Por algum motivo, minha professora de Português, Simone, acreditava em mim. Claro que fazia toda diferença do mundo pra , então achava aquilo muito legal. Certa vez, numa palestra na escola ela levou Maurício Ricardo (criador do portal www.charges.com.br). Na época ele ainda não tinha o site, mas era um desenhista, então qualquer informação seria válida.

Eu era muito tímido pra fazer perguntas então, minha professora perguntou se os pais dele o tinham apoiado a seguir essa carreira. E ele disse, pra minha surpresa, que ?não?. E que ele tinha era achado bom porque, assim eles não dariam falsas esperanças pra ele.

Eu tinha levado uma pasta com desenhos meus, mas tinha ficado com vergonha de mostrar. Quando estava acabando a palestra, minha professora viu que eu tinha levado e, ela mesma mostrou pra ele.

E ele não gostou.

E perguntou o que mais eu gostava de fazer. Um colega meu, Fernando, me encheu muito o saco por isso, dizendo que eu era todo metido e que agora eu ia ficar quieto. Eu não andava muito animado mais. Disso eu me lembro.

Mas, numa bela noite, depois de sair da escola (ainda na 7a Série), fui com minha mãe e minha irmã ao shopping pra fazer alguma coisa que eu não lembro. A minha impaciência já era notável, então, enquanto elas faziam o que tinham que fazer, eu fui até a banca de revistas. Estava folheando os X-Men e Homem-Aranha de sempre até que peguei uma revista chamada Fator X. O desenho da capa era fantástico, muito bem colorido e tinha um traço diferente do que eu já tinha visto.

A capa e a maioria das HQ?s do miolo eram fantásticas. Eu já conseguia perceber que se tratava do mesmo desenhista. Então, pela primeira vez desde que eu aprendi a ler, resolvi ler aquele pedacinho do começo da revista onde ficam os nomes de quem fez o quê. Não deu tempo de ver. Minha mãe tinha chegado na banca pra gente ir embora.

Eu pedi dinheiro pra ela pra comprar a revista e ela disse que comprava depois. Mas eu queria naquela hora. Eu pedi pra minha irmã e ela me emprestou o dinheiro. Comprei rapidinho, dei um beijo nela de agradecimento e encostei numa parede pra ver mais daqueles fantásticos desenhos. Na lacuna ?desenhista? o seguinte nome: Roger Cruz.

CONTINUA

Bruno Oliveira

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