Criaturas da Noite
Ediouro Quadrinhos/Dark Horse
R$ 14,90 - Álbum Especial
17,5 x 25 cm - 56 páginas
por Éder Rösner de Macêdo.
Criaturas da Noite: Creatures Of The Night - Nota: 7,5
Argumento: Neil Gaiman
Arte: Michael Zulli
Primeiramente, gostaria de salientar a excelente qualidade gráfica da revista. O papel é fantástico, dá gosto de ler a edição. Também marcam presença (mini) biografias de Neil Gaiman e Michael Zulli (o ilustrador) e um prefácio de Mário Bortolotto. Ainda há diversas citações presentes apenas na edição nacional, que dão um toque extra ao produto - minha preferida é a de Oscar Wilde: "Eu acho que Deus, ao criar o homem, superestimou suas habilidades." Dito isto, vamos as histórias em si. Essa edição apresenta dois contos de Gaiman, originalmente publicados no livro "Fumaças e Espelhos" (lançado por aqui pela editora Via Lettera), adaptados para os quadrinhos.
O primeiro, "O Preço", traz como protagonistas um escritor e um gato preto (dentre vários felinos que adornam as páginas). Um altivo gato negro aparece na casa de um homem cuja ocupação é escrever. Ele mora no interior, um tanto distante de grandes cidades e seu hobbie é criar gatos. Misteriosamente, o bichano começa a aparecer mais e mais machucado a cada noite que passa e o seu dono decide investigar o caso.
É uma leitura bastante divertida. O enigma em torno do felino torna o texto mais atrativo e o estilo de Gaiman colabora para isso. Mas, para o bem e para o mal, fica extremamente perceptível que se trata de uma "adaptação" para outra mídia. É possível entender perfeitamente a história sem prestar atenção em nenhum desenho, o que a transforma muito mais em um conto ilustrado do que propriamente uma história em quadrinhos. A conclusão da trama, embora não surpreendente (o que pode decepcionar alguns, dado o mistério que a permeia) é sólida e coerente, apresentando uma visão nada moralista sobre a frágil condição humana.
Em "A Filha das Corujas", o segundo conto, um bebê é abandonado perto de uma igreja e, junto à criança, estão pele e ossos de corujas. Supersticiosos, os habitantes do povoado deixam a criança em um monastério isolado da cidade. Ela cresce e se torna uma bela mulher, cuja presença pode mudar o comportamento dos homens da cidade. Neil Gaiman usa esse fio condutor para refletir sobre a hipocrisia da sociedade. Embora menos instigante do que a primeira, essa história também apresenta um mistério que, ao final, não chega a ser resolvido. Provavelmente porque esse não era o objetivo de Gaiman. Os dois contos mostram eventos sobrenaturais que alteram a rotina das pessoas, e isso é o que importa para o autor, não a explicação dos acontecimentos em si. Ao final, novamente o escritor pondera sobre a natureza humana, desta vez com certa ironia.
As belas ilustrações de Michael Zulli se encaixam perfeitamente no estilo mágico de Gaiman, parecendo saídas diretamente de um conto de fadas. Destaque para "A Filha das Corujas". As belas cores ajudam o leitor a se transportar para o vilarejo do século XVII onde ocorre a ação. Em suma, é uma bela edição, com duas pequenas histórias interessantes, embora mostrem um autor menos inspirado do que o habitual.