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As Eras dos Quadrinhos
© Guilherme Smee [1|2|3|4]

Mudança de Paradigma ? Metamorfose Ambulante

Umberto Eco, em seu estudo sobre o mito do Superman, publicado no livro Apocalípticos e Integrados, mostra que, por ser um arquétipo, o super-herói deve apresentar certa inércia para permitir a fácil identificação. Ou seja, nada de grandes mudanças em sua vida. Por essa razão, as editoras costumam resistir a deixar seus personagens casarem ou terem filhos. Segundo o autor, os arcos de história se sucedem, o herói enfrenta e debela inúmeras e semelhantes ameaças, mas, no final, perdura essencialmente o mesmo status quo: combater o mal, servindo como exemplo de coragem e heroísmo, geração após geração, sem nunca envelhecer ou evoluir. Caso o Superman, ou qualquer super-herói sujeito a essa mesma lei, provoque alguma ação que altere esta continuidade, daria um passo em direção a seu fim. E este fim, como sabemos, não é a morte.

Superman encontra JFK (Superman #170 - 1964)

Por outro lado, o personagem também não pode permanecer estático por muito tempo, especialmente em seus detalhes, ou então sua imutabilidade e eterna juventude o transformarão em uma relíquia: a idade que o personagem mantém nos quadrinhos contrasta com a defasagem em relação a seus leitores. Enquanto os jovens conversam em seus i-phones, Clark Kent usa uma máquina de escrever para redigir suas reportagens e Lois Lane é impedida de usar minissaia. Para Eco, cabe aos roteiristas criar métodos de manutenção desta mitologia, adaptando-a para o tempo corrente.

Dentro dessa mesma lógica, as histórias de super-heróis estão subordinadas a uma indústria de consumo que, por sua vez, rege-se pela lei da oferta e da demanda. Adaptações em diferentes estágios de evolução, portanto, geram um grupo de conteúdos característicos que se reúnem notavelmente nos quadrinhos de uma determinada época, compondo as ?Eras? delineadas pela comunidade de leitores, que é influenciada pelo zeitgeist, o espírito da época e da sociedade. Toda esta discussão, porém, nos leva à pergunta: quando uma era é substituída por outra?

Arnold T. Blumberg, em seu ensaio sobre o nascimento da Era de Bronze dos quadrinhos aplica a teoria da Estrutura das Revoluções Científicas de Thomas S. Kuhn. Este princípio trata da crise e de seu relacionamento com a inovação científica, a redefinição de paradigmas existentes, e do progresso resultante que fazem a ciência e o mundo avançarem. A crise, neste caso, seria um evento ou edição que provoca uma mudança na maneira como os quadrinhos de super-heróis são vistos pelos seus leitores.

Sabemos viver uma época diferente da dos nossos pais. Temos o mesmo tipo de percepção ao ler os quadrinhos de um período anterior e os compararmos com os atuais. Fica claro que houve uma mudança de paradigma, e que essa substituição não foi sutil. Podemos notar a transformação na maneira como a aventura é contada, nos estilos que norteiam os artistas, na linguagem e na caracterização dos personagens e, sobretudo, na influência da evolução de História e sociedade sobre todos esses aspectos.

Superman encontra Ronald Reagan (Lendas #2 - 1986)

Assim como há, na história da humanidade, uma Idade Média, situada entre pontos divisores como o Fim do Império Romano do Ocidente e a Tomada de Constantinopla, a história dos quadrinhos de super-heróis norte-americanos também possui seus períodos e seus marcos. O grande problema é que não há um consenso nem entre estudiosos, nem dentro da comunidade de leitores de quadrinhos sobre quais edições ou eventos determinam o fim de uma era e o início de outra.

Não é necessário tentar uma nova classificação de todo este conteúdo em novos períodos de tempo, tornando ainda mais confusas suas delimitações e transições. Mais interessante é revisar as principais formulações sobre cada Era, seus caracteres específicos e analisar os pontos de consenso e discordância em suas definições. Para entender melhor essas modificações, não se pode esquecer de indagar quais acontecimentos, nas páginas dos gibis ou dos jornais, modificam hábitos, postura e cultura de autores e leitores.

A Era de Ouro ? Agradando Gregos e Romanos

O Início da Era de Ouro
(Action Comics #1 - 1938)

A expressão ?Era de Ouro? é geralmente usado para classificar um período de tempo em que um determinado gênero, arte, ciência ou civilização atingiu seu auge, e manifestou com maior esplendor os valores que o norteiam. Dessa maneira, no que se refere à sociedade, temos, por exemplo, a Era de Ouro da China, do Islã, da Inglaterra.

A origem do termo vem da Grécia e da Roma antigas, da referência que seus poetas faziam a um tempo em que a humanidade vivia em uma utopia e era pura. O autor grego Hesíodo descreve as Cinco Eras do Homem, dividindo-as em Era de Ouro, de Prata, de Bronze, Heróica e de Ferro. Todas elas se iniciam com a criação de uma nova raça humana e se encerram com a destruição da mesma, seja pelo titã Cronos ou por Zeus. A exceção é a Era Heróica, em que viveram Hércules, Teseu, Perseu e Aquiles, encerrada com a Guerra de Tróia, na qual muitos campeões pereceram. A mitologia grega é calcada nos fatos supostamente ocorridos durante a Era Heróica, deixando uma rica herança cultural para seus sucessores. Na Era de Ferro, correspondente aos dias atuais, a humanidade leva uma vida muito mais difícil se comparada à da era dourada, quando todos viviam em harmonia e sua vida era repleta de prazeres. No período atual, como os deuses se retiraram para o Olimpo, a humanidade não tem mais proteção, o mal excede o bem e obscurece a vida dos homens.

O "retorno" do Capitão América
(Strange Tales #114 - 1963)

Quando a cultura helênica foi absorvida pelo Império Romano, o poeta Ovídio, em suas Metamorfoses, adaptou a mesma tradição para os termos de Roma. Assim, as Eras do Homem tornaram-se quatro, subtraindo-se a Era Heróica.

A primeira menção a uma Era de Ouro referindo-se aos super-heróis dos anos 40 foi feita por Richard A. Lupoff, em um artigo chamado ?Re-Birth?, no fanzine Comic Art #1, de abril de 1960. Nos gibis, o termo foi usado pela primeira vez em 1963, na revista Strange Tales #114, da Marvel Comics. A revista trazia na capa o retorno do Capitão América, vindo de um período que naquele momento foi considerado a Era de Ouro dos quadrinhos. Este Sentinela da Liberdade acabou se revelando um embuste, mas pouco tempo depois, com a boa repercussão da história, o verdadeiro herói ressurgiria na clássica Avengers #4.

Em toda a discussão sobre as eras dos quadrinhos, seus marcos iniciais e finais, existe apenas um consenso: tudo começou com Action Comics #1 (1938), a primeira edição em que o Superman aparece. Todas as obras seguintes, no mesmo estilo, constituíram um novo gênero. Este conjunto é denominado Era de Ouro dos quadrinhos de super-heróis. O início é claro e fácil de definir, mas seu término, por outro lado, é um caso complicado.

Período de Transição A ? Atirando para todos os lados

Durante a Segunda Guerra Mundial, os quadrinhos de super-heróis atingiram seu ápice. Foi durante este período que foram registrados seus maiores números de vendas por exemplar. Segundo Bradford W. Wright, em 1943, os quadrinhos vendiam 25 milhões de cópias por mês. Apenas o título do Capitão Marvel era responsável por mais de 1,5 milhão. A guerra impulsionava os leitores a consumirem quadrinhos, uma vez que os gibis traziam em suas capas os super-heróis enfrentando os cabeças do Eixo. Além disso, milhares de quadrinhos eram levados ao front para que os soldados se sentissem incentivados com as histórias dos heróis.

A Guerra e os quadrinhos
(Captain America #1 - 1941)

Contudo, em 1945, a guerra acabara, e não fora nem Superman nem o Capitão América quem acertara um direto de direita na face de Hitler, mas seres humanos normais. Os soldados aliados haviam vencido a guerra sem a ajuda de superpoderes e, de volta para casa, não estavam mais interessados em superaventuras patrióticas, mas na manutenção de suas famílias. As pessoas começaram a perder o interesse pelas revistas de super-heróis. Personagens como Tocha Humana, Namor, Flash e Lanterna Verde deixaram de ser publicados por volta de 1949. Apenas Superman, Batman, Mulher-Maravilha, Arqueiro Verde e Aquaman resistiram.

Surgiram novos gêneros para suplantar a vaga deixada pelos super-heróis. Horror, western, crime, romance. Quadrinhos para todos os gostos. Ken Quattro, em seu artigo sobre as eras dos quadrinhos, mostra muito bem essa mudança no título do Capitão América, entre a edição 70 e 75, quando a revista passa do gênero de super-herói para o horror. Já um título da EC Comics, Moon Girl, variou entre os gêneros até se definir. A edição 5 continha uma história de horror. Na edição 7, o título passou a se chamar Moon Girl Fights Crime, e, no número 9, A Moon, A Girl... Romance. Passou, definitivamente, a se chamar Weird Fantasy na edição 13 e a trazer histórias de horror.

Mas e estas histórias de horror, romance e crime? Podem ser incluídas como parte da Era de Ouro dos Super-Heróis? Alguns autores resolvem essa questão rotulando este período como uma era à parte. Roberto Guedes, por exemplo, chama o período de Era das Trevas, devido ao seu conteúdo. Muitos autores e pesquisadores se referem a ele como a Era Atômica, pela temática voltada ao pânico de uma guerra nuclear. Pode-se também considerá-lo um período de transição: um momento que apresenta os estilos tanto da uma época anterior quanto da seguinte.

As muitas fases da revista Moon Girl. Primeiro vemos a capa da edição #5, com uma história de horror. Na seqüência, a luta contra o crime na edição #7. No edição #9, uma história de romance. Finalmente, na edição #13 o novo nome abraçando o gênero de horror (1948 - 1949).

Engana-se quem imagina que um período começa onde o outro termina. Tampouco há um limite temporal demarcado e preciso, no qual se interrompem todas as características da Era de Ouro e, uma vez transposto, encontra a Era de Prata, já instalada, a sucedê-lo. Ao pesquisar o assunto, mostra-se comum que entre o fim de um período e o início de outro haja uma época que, de certa forma, faz a intersecção entre eles. Com a análise as Eras seguintes, essa teoria ganha força e se desenvolve.

Comics Code Authority (1954)

O sucesso das editoras de horror e crime, como a EC Comics e a Lev Gleason?s, começou a incomodar muita gente. Não somente suas concorrentes, mas pessoas que gostavam de defender a moral e os bons costumes, e julgavam o conteúdo destas publicações ofensivo. Pessoas como o psiquiatra Frederic Wertham. No clima de caça às bruxas dos anos 50, com a perseguição aos comunistas, os quadrinhos também se tornaram alvos da censura. Muitos foram queimados em praças públicas, e seus editores tiveram de responder a comissões no senado que investigavam se os comics eram responsáveis pela delinqüência juvenil, conforme Wertham havia afirmado em seu livro A Sedução do Inocente. A conseqüência direta deste acossamento foi a criação de um código para os quadrinhos e a famigerada Comics Code Authority, que redefiniu a indústria de quadrinhos americana.

Conforme o código, as palavras crime e horror não poderiam mais figurar nas capas das revistas, os gibis não deveriam trazer histórias com elementos de terror, como vampiros e mortos-vivos, seu conteúdo não poderia provocar em seus leitores ?emoções vis?, entre outras proibições, fazendo com que a EC e Lev Gleason?s encerrassem suas atividades. Frank Miller disse: ?O Comics Code foi a coisa mais idiota e covarde que os quadrinhos já cometeram. Não foi proposta para nos proteger de ninguém, foi resultado de uma conspiração de editoras concorrentes para tirar a EC Comics de ramo?.
Teria a criação do código encerrado a Era de Ouro dos super-heróis, ou ela já havia acabado muito antes? Sempre que o código foi flexibilizado, houve um avanço no conteúdo das histórias em quadrinhos para um novo momento. A Era de Prata, por sua vez, foi o único período em que esse teor foi infantilizado, mas fazendo as mentes dos criadores, sob o cabresto do código, fervilharem para criar novas e incríveis situações para atrair os leitores.

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por Thales em 12/04/2008:
Cara, esse foi o melhor passeio que já fiz pela hitória super-heróica!!!!!!Se livros de história escolares estudassem esse assunto, esse artigo devia ser obrigatória em todos!
por Cajun em 13/04/2008:
Que texto do caralho! Parabéns pela pesquisa e pela dissertação.
por DarthOracle em 14/04/2008:
É o tipo de matéria que vc só encontra no Fanboy. Se não existisse o tradicional jabá no mercado, seria inevitavelmente premiada. Parabéns ao autor e ao editor responsável.
por savage em 16/04/2008:
Excelente o texto. Ótima e completa abordagem sobre a história dos quadrinhos. Leitura pra lá de recomendável.
por Antonio_Ricardo em 18/04/2008:
Matéria muita boa.Parabéns para quem escreveu,essencial para quem gosta de ler gibi.Isso mostra o porquê o fanboy é um dos melhores sites de quadrinhos do Brasil.De novo,parabéns galera!
por mcoelho em 19/04/2008:
Parabéns pelo texto Guilherme. Bem escrito, bem conduzido e com muitas referências. Um prato cheio realmente...
por Rainorx em 25/04/2008:
Ótimo texto, muito bem escrito. Só achei que faltou qualquer menção aos mangás que, de uma década pra cá, influenciam os quadrinhos ocidentais. E sobre os HQs atuais, o grupo Authority, com sua visão politizada e adulta, poderia ter sido citado. Parabéns.
por Cajun em 25/04/2008:
Mas Rainorx, no caso dos mangá e de Authority, o peso deles é muito mais estético do que da forma como se "entendia" os quadrinhos. O texto foca nas diferentes leituras que a mídia teve desde sua criação que provocaram a falada quebra de paradigmas. Os mangás, em sua influência artística, não chegaram a quebrar nenhum paradigma nos comics. E Authority nada mais foi do que a abordagem madura do que se iniciou com a Image.
por Matheus_Lutz_Ramos em 29/04/2008:
Fantática matéria, muito rica e detalhada. Parabéns ao Guilherme. E para acrescentar, eu fecho com o Darth; só o Fanboy tem matérias com esta. : D
por Y-Smee em 29/04/2008:
Comentando sobre Authority. Já li em algum lugar que a publicação de Authority #01, em 1999, teria iniciado uma tal de Era do Concreto. Em que os heróis lidavam de maneira mais direta com os problemas mundiais. O que aconteceu em seguida, porém, acabou refreando a influência dessa onda do Authority: o 11/09. As edições atrasaram e até um especial do Bryan Hitch foi cancelado por causa da extrema violência que a série trazia. E aí foi publicado Transferência de Poder, q a Pixel acabou de trazer pra cá. Muitas cenas foram censuradas, em respeito ao atentado. O CCA não estava tão ativo, mas a queda das Torres Gêmeas refrearam o conteúdo do gibi, e influenciaram em muito mais. Então, por causa dos talibãs e dos americanos mortos, a Era de Concreto não se "concretizou". Mas as influências de Authority estão aí: Supremos, Alias, Supremoverso, LJElite... E aproveitando a deixa, agradeço ao Leandro pela ótima escolha de imagens para ilustrar a matéria! Superman com os presidentes ficou demais!
por RONI1958 em 13/07/2008:
Cara,ainda me lembro quando comecei a ler quadrinhos... Vinte anos atras... Naquela epoca a diferenca entre comprar um quadrinho no Brasil e no exterior era que la fora podiamos saber o que vinha depois... e no Brasil nao havia revistas especializadas, ou no tanto, as noticias chegavam a ponta gotas em fanzines. Hoje com internet lemos artigos maravilhosos como estes no Fanboy, descobrimos que nao apenas acessamos informacoes, podemos cria-las e compartilha-las. Ler este texto me fez sentir pequeno em meio a tanta informacao que na epoca de 20 anos atras procurava, nao encontrava e me desesperava para saber. Longa vida a internet e seus colaboradores.
por Kyle em 23/08/2008:
Parabéns. Excelsior.
por Magico_vento em 20/10/2008:
Perfeito! Uma grande aula. Parabéns!
por Kent em 15/02/2009:
Não tenho como explicitar meu contentamento e elogios por esta matéria, ótimo texto, parabéns! Se possível, gostaria de usá-lo como uma das referências para redigir uma matéria com conteúdo semelhante em nosso site (www.zineacesso.com), é lógico, dando os devidos créditos à equipe do Fanboy. Grande abraço a todos!
por GiordanoCimadon em 01/10/2009:
Muito bom o texto. Lembrei do livro O Herói de Mil Faces, de Joseph Campbell.
por fgsl em 05/11/2009:
Uma dúvida: na legenda sobre a revista Moon Girl, a edição #5 na verdade é uma história de ficção científica, certo?
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