Sidney Gusman, 36
anos, é jornalista especializado em quadrinhos e desenhos de
humor. Desde 1990 escrevendo sobre o tema, já teve artigos
publicados em vários jornais, como O Estado de S. Paulo, Folha
de S. Paulo e Jornal da Tarde, e revistas do naipe de Wizard,
Herói.com.br, Imprensa e Superinteressante.
Em 2000 e 2001,
recebeu o Troféu HQ Mix de melhor jornalista especializado em
quadrinhos do Brasil.
Ao longo de sua
carreira, conseguiu publicar matérias sobre HQ's em
veículos que, aparentemente, não tinham a menor
ligação com o assunto, como as revistas Imprensa,
Superinteressante, Gula, Duas Rodas e outras.
Atualmente, Sidney
Gusman é editor-chefe do Universo HQ
Leia agora o
divertido papo que tive com Gusman.
Fanboy:
Fale-nos sobre sua carreira jornalística, e como foi parar na
indústria das HQ's.
Sidney Gusman: Bom, a
história é longa, mas vamos lá. Como sou
jornalista, formado pela Metodista, de São Bernardo do Campo, em
1991, comecei escrevendo para jornais como Jornal da Tarde, Folha da
Tarde e Estado de S. Paulo.
No
entanto, meu primeiro artigo publicado foi pela Editora Globo, nas
revistas Fantasma e Sandman (ambas no número # 7), sobre
quadrinhos e música. Como fiz alguns textos pro Leandro Luigi
Del Manto (na época editor da Globo), ele me chamou para ser
redator lá. Fiquei até 1992, quando, num corte, fui
demitido.
Aí, tive que
lembrar que eu era um JORNALISTA, e não um JORNALISTA DE
QUADRINHOS. Fui trabalhar na área de comunicação
empresarial, que paga MUITO melhor, na qual fiquei de 1992 a 2001. Meu
último emprego foi como gerente de comunicação de
uma empresa de transportes.
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Matéria de Gusman para Sandman
#53, da Globo
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Mas os quadrinhos
sempre foram minha paixão, e não conseguia largar o
vício. Assim, nesses anos todos, mantive meu nome em
evidência pro público de HQs escrevendo para jornais,
revistas, sites etc. Me orgulho muito de, desde 1993, jamais ter
passado um mês sem escrever uma matéria sobre quadrinhos.
Efetivamente, eu me
tornei editor (digo efetivamente, porque na Globo já ajudava o
Leandro nos fechamentos, apesar de meu cargo ter outra nomenclatura) na
área de comunicação empresarial, fechando revistas
e jornais informativos, o que, pode acreditar, é MUITO mais
complicado que editar quadrinhos.
Sabendo dessa
experiência adquirida e pelos frilas que vinha fazendo pra Conrad
(na área de livros, no site Herói e nos quadrinhos), o
Rogério de Campos me convidou para ocupar o cargo de editor
executivo de toda a linha de quadrinhos da editora, em dezembro de
2001.
Na época,
tive que optar entre o convite da Conrad e outro da Panini (eu seria o
editor da linha Marvel), mas a primeira era mais vantajosa,
financeiramente falando. Assim, apesar de ser fã de
super-heróis e conhecê-los bem melhor do que aos
mangás, optei pela Conrad, especialmente porque sou casado,
tenho filhos e quero o melhor pra minha família.
Esse assunto vazou
pela internet, o que me deixou bastante chateado, pois teve gente que
dizia "não acreditar no que eu fiz". Mas ninguém
além de mim tinha o direito de palpitar sobre minhas
decisões profissionais. E o importante é que mantive as
portas da Panini abertas.
Fanboy:
E como é editar mangás numa mercado que
até a entrada da Conrad era dominado por comics?
Sidney Gusman:
É uma experiência espetacular, pois, como sempre digo,
você SEMPRE tem algo a aprender, em qualquer lugar onde
trabalhar.
Tive que me inteirar
sobre o universo dos mangás, estudar melhor os títulos,
personagens e autores, e venho fazendo isso desde então.
Felizmente, contei (e conto) com o apoio do Cassius Medauar, o editor
que lançou os mangás da Conrad, e de minha equipe de
arte, todos feras em quadrinhos nipônicos. E com a troca
constante de nossas experiências profissionais, trabalho vem
fluindo muito bem. Pelo menos é o que a imensa maioria dos
leitores acha.
Na minha
opinião, a Conrad tem um mérito inquestionável no
lançamento dos mangás, e que é anterior à
minha entrada na editora: ter apostado no formato oriental! Apesar de
alguns não gostarem, ela agradou em cheio aos fás de
mangás que estavam ávidos para ver esses títulos
no Brasil.
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Dragon Ball Z: sucesso na TV e nos
mangás
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Claro que
começar com dois pesos-pesados como Dragon Ball e Cavaleiros do
Zodíaco ajudou, mas depois foram lançados títulos
pouco conhecidos por aqui na época, como Vagabond e One Piece; e
acho esta estratégia bem legal, para formar novos leitores.
Hoje, temos MUITOS
leitores que jamais leram uma HQ em sentido ocidental. Parece loucura,
mas é uma constatação! Tenho dito isso em
várias entrevistas e palestras e ratifico: os mangás,
atualmente, são o ÚNICO gênero de quadrinhos que
cria novos leitores. E isso é vital para a
manutenção do mercado no futuro.
Como leitor de
super-heróis e quadrinhos ocidentais, é duro dizer isso,
mas discordo de quem acha que mangás estão formando
leitores para estas HQs. Creio que esses leitores, quando amadurecerem,
acabarão se tornando leitores de mangás infanto-juvenis e
adultos!
Fanboy:
O que você acha, então, que poderia ser feito para
realizar essa renovação de leitores nos comics?
Sidney Gusman: Na
realidade, eu ACHO que os mangás não formarão
leitores para os comics. Posso estar errado, mas é o quadro que
se apresenta. Basta visitar os eventos dedicados aos mangás e
animês pra constatar isso. Existem intersecções de
público, claro, mas há leitores que simplesmente ODEIAM
qualquer quadrinho que não seja japonês. Considero isso um
preconceito tolo, mas é fato: ele existe!
O que poderia ser
feito foge à alçada das editoras brasileiras. Isso deve
ser feito nos Estados Unidos, pelas editoras de super-heróis. E
elas vêm tentando mudar esse cenário há anos, com
pouco sucesso.
Como leitor de
super-heróis desde que me conheço por gente, é
duro admitir isso, mas o público desse gênero de
quadrinhos envelheceu! E é difícil pra caramba criar
coisas novas com personagens que estão no mercado há 40,
50, 60 anos. Basta ver as inúmeras reformulações,
mortes, idas e vindas que já foram tentadas.
Honestamente, acho
que os japoneses acertaram a mão quando decidiram fazer
séries longas, mas COM FINAL. Ou seja, pode até demorar,
mas o leitor sabe que uma hora vai acabar. Isso não rola com os
super-heróis. E nem vai rolar, pois eles são "marcas" que
as editoras pretendem trabalhar pela eternidade, mesmo que, para isso,
os façam protagonizar histórias sofríveis.
Em fevereiro, o Mark
Millar deu uma declaração interessantíssima numa
entrevista ao Omelete: que ele acha que até o final da
década todos os quadrinhos nos Estados Unidos serão lidos
no sentido oriental! E pra quem sabe como os mangás estão
dominando os mercados pelo mundo (vide Itália, Espanha,
Alemanha, Brasil e até Estados Unidos), não convém
duvidar disso.
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HQ no cinema: tentativa de atrair novos
leitores
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As
adaptações cinematográficas de
super-heróis, creio, sejam uma boa tentativa para criar novos
leitores, que podem vir a se empolgar com o que viram nas telonas. Mas
aí entra o velho problema: o que o cara vê no cinema,
não vai encontrar nos quadrinhos.
O cara sai da sala
de cinema doido pelo gibi do Aranha, e quando o compra descobre que ele
ja casou com a Mary Jane, ela morreu, voltou, eles se separaram... Ou
seja, fica difícil!
Enquanto isso, os
japoneses seguem trabalhando com extrema competência a
ligação com as mídias cinema e televisão.
Há diferenças entre as versões em mangás?
Sim, mas são poucas, e isso acaba atraindo o leitor. Além
disso, vale lembrar, é muito mais simples pro leitor conseguir
os números anteriores de um mangá, e ler a
história desde o início. Já imaginou se ele
tivesse que comprar, por exemplo, tudo relacionado ao Cabeça de
Teia, pra entender o que aconteceu entre o fim do filme e a fase atual
do personagem?
Fanboy:
Apareceram muitos fumetti nas bancas. Seria para atender esse
público que amadureceu?
Sidney Gusman: Pode
ser. Os fumetti são, em geral, quadrinhos de aventura, suspense,
ação e terror, com roteiros mais trabalhados. No entanto,
como estes gêneros também são abordados pelas HQs
americanas, fica difícil competir, pelo "tempo de casa" dos
supertipos por aqui.
Mas há
excelentes fumetti saindo aqui, e merecem ser conferidos. Os meus
favoritos são Ken Parker, Dylan Dog e Mágico Vento. Uma
coisa interessante dos quadrinhos bonellianos: você pode
até não gostar deste ou daquele desenhista, mas
TECNICAMENTE não há nenhum que possa ser classificado
como ruim. Nos super-heróis, por exemplo, é fácil
dar esta denominação pra um monte de gente.
Fanboy:
E c omo você acha que esta o mercado de quadrinhos este
ano?
Sidney Gusman: Em
retração! Mas é o mercado editorial inteiro,
não só os quadrinhos. Especula-se que fevereiro de 2003
tenha sido tão ruim, que a última vez em que foram
vendidas tão poucas revistas foi no mês do anúncio
do Plano Collor! Dá para imaginar isso?
Os preços
contribuem para isso. Como o papel e as gráficas subiram, as
editoras reajustaram seus títulos. Mas não é
só isso! O fato é que o poder de compra está
menor, e o leitor está tendo que optar entre alguns
títulos, pois é impossível colecionar tudo que sai
em bancas hoje. A não ser, claro, que estejamos falando de
alguém muito abonado.
Fanboy:
A crise financeira faz com que coisas supérfluas, como
revistas, sejam cortadas do orçamento. E como explicar, em plena
retração do mercado, tantos títulos diferentes nas
bancas? Um título da Conrad, por exemplo, não acaba
competindo com o outro?
Sidney Gusman: Claro
que acaba havendo essa concorrência. Hoje, aquele leitor que
comprava tudo acabou! Não dá mais! É muita grana!
São os tempos da segmentação, nos quais o leitor
tem que escolher o que lhe agrada mais.
Ao mesmo tempo,
parece um tremendo paradoxo que hoje haja tantos títulos nas
bancas. Mas a razão disso é que as editoras estão
optando por trabalhar com tiragens pequenas, para públicos
específicos e fiéis, ou seja, margens pequenas,
porém, garantidas de lucro. Isso é MUITO preocupante,
porque, no primeiro momento, isso é viável
financeiramente, mas, por outro outro, abandona-se de vez a
formação de novos leitores, que é o que
garantirá a continuação de nosso mercado no futuro.
E, se isso
acontecer, quadrinhos se tornarão cada vez mais pequenos nichos.
Nesse sentido, os mangás levam vantagem, pois desde sua chegada
ao Brasil, vêm criando novos leitores