por Hugo Silva

Rom |
O mundo é por vezes presenteado com duas pessoas que,
sendo das melhores naquilo que fazem, conseguem se exceder ainda mais
na companhia uma da outra, proporcionando-nos com isso uma dupla que ficará
sempre na história. Isto acontece em diferentes campos da nossa vida,
seja no futebol com um
Romário-Bebeto, seja na música com um
Lennon-McCartney
ou ainda no mundo dos quadrinhos com um
Lee-Kirby.
Nesta coluna irei abordar uma dupla que
produziu várias revistas de qualidade, quer na arte visual, quer no argumento
ali apresentado. A dupla em questão é formada pelo escritor Bill Mantlo
e pelo artista Sal Buscema. Estes dois, além de terem produzido
uma das melhores fases de sempre do Incrível Hulk, foram os responsáveis
para transpor e criar para o mundo das revistinhas as aventuras de um
brinquedo que era produzido àquela altura, Rom, o Cavaleiro
do Espaço.
Para quem se lembra das histórias produzidas
por Mantlo (no seu tempo áureo, não as de final de carreira), os
temas Espaço, Mistério e Fantasia eram algo que ele já utilizava com alguma
regularidade, tudo com muita ação à mistura. A arte de Buscema
criou de forma perfeita e linear os vilões daquele universo, e quando
o mesmo foi substituído no número 59, a
arte não ficou muito afetada, já que o seu substituto, o veterano Steve
Ditko, tinha um traço que era em tudo semelhante ao utilizado pelo
Buscema.
| De brinquedo a herói
dos gibis |
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O boneco Rom |
Rom era uma “
Action Figure” da empresa
Parker Brother em 1979, e embora o boneco não tenha sido muito
popular nem nenhum sucesso de vendas, o comic do mesmo sobreviveu durante
seis anos produzindo com isso mais de 75 edições. O sucesso pode ser explicado
por diversos factores:
1)
O género de ficção científica era algo muito em voga na década
de oitenta e livros relacionados com isso geravam sempre algum interesse
por mais desconhecidas que fossem as personagens principais (A DC experimentava
o mesmo com o Esquadrão Atari por exemplo).
2)
A arte de Sal Buscema era a ideal para
retratar todo aquele universo em que o Rom se movimentava e como
a união do artista com o escritor Bill Mantlo já era conhecida
de outros títulos, havia a esperança de que pelo menos algum número de
fãs seguisse a dupla para o próximo projecto em que colaborassem.
3)
O constante crossover com heróis e vilões
conhecidos do universo Marvel, ajudava a que aqueles que não seguissem
o comic tivessem então conhecimento do mesmo. Todos participaram, desde
o Capitão Marvel aos X-Men, fazendo com que os fãs desses
heróis dessem de cara com este novo herói e a saga apaixonante que envolvia
o mesmo.

A estréia de Rom |
A história de Rom começa num planeta distante,
Galador, onde os seus habitantes (humanóides como os terrestres
claro) depois de terem sido alvos de um ataque feroz por parte de uma
raça alienígena (estes já eram convenientemente parecidos com monstros),
os malignos Espectros (wraith no original que, para além
dos seus poderes de transmorfos, eram uma raça guiada pela maldade e pela
ferocidade), formaram uma força de elite chamada Cavaleiros do Espaço
(Spaceknights). Os Cavaleiros do Espaço não eram mais do
que cyborgues (metade humanos, metade máquinas) cada um deles com
um poder ou arma específica.
O maior problema nisto tudo, era o de que
os habitantes do planeta cresceram numa cultura em que a humanidade era
considerada sagrada e abdicar da mesma, mesmo que fosse para proteger
o seu planeta, tornava-se algo de inconcebível sendo raros os voluntários
para esta força de elite. ROM avançou, sendo o primeiro dos jovens
a sujeitar-se a este tratamento atraindo com isso mais jovens para o exército
que se queria formar de mil Cavaleiros do Espaço. Uma força de
elite com robôs, era essa a premissa do brinquedo, e tendo cada um o seu
próprio poder e uma arma específica poderia ser algo de que as crianças
fossem gostar. Claro que para um livro a coisa teria que ser mais aprofundada
e Bill Mantlo criou toda uma trama a partir desta pequena origem.
Quando os Espectros decidiram atacar
o planeta, os mesmos foram derrotados pela força de elite liderada por
ROM que, não contente com a vitória, decide perseguir os seus inimigos
até o seu planeta de origem. Lá uma das raças dos Espectros usa
de feitiçaria para atrasar o nosso herói e permitir que os mesmos fujam
pelo universo fora. Voltando a Galador, ROM convence os
restantes Cavaleiros do Espaço a embarcar numa perseguição à raça
dos Espectros por todo o universo, algo que durou 200 anos até
que a mesma chegou a um planeta chamado Terra.

Rom sem a armadura |
O primeiro contacto do herói com o nosso planeta não
foi o melhor. Tudo porque quando ele utilizava a sua arma para banir os
Espectros para o
Limbo, o que transparecia para os humanos
era que ele estava a matar membros da nossa raça já que eles tinham assumido
a forma de humanos chegando a viver durante décadas entre nós. Somente
quando ele encontrou
Brandy Clark de
Clairton, West Virgínia,
é que ele descobriu que podia transmitir a sua mensagem aos humanos e
estes podiam acreditar em si como ela acreditou. Mais tarde toda a cidade
se rendeu ás evidências e apoiou o Cavaleiro do Espaço. Esse apoio foi
reforçado quando
Brock Jones, também conhecido como o super herói
Torpedo, se tornou o seu maior aliado e uma ajuda importante na
luta incansável contra os Espectros.
Aqui, e para contrabalançar a acção, mistério
e aventura que se vivia nas aventuras de ROM, entra em acção o
factor romântico quando Brandy se apaixona pelo nosso herói e este
(apesar da mesma chegar a estar noiva e tudo) começa também a corresponder
aos seus sentimentos. Isto gerou histórias atrás de histórias, como uma
em que chegou-se a colocar ROM assassinando o noivo fazendo com
que todos pensassem que isso tivesse sido por ciúmes, quando na verdade
era um espectro disfarçado de humano que tinha assumido o lugar do noivo
e amigo de ROM.
Aliás esta era uma altura em que ROM começava
a ter amigos um pouco por todo o planeta, alguns chegando a ficar constantemente
ao seu lado, como foi o caso do eterno sidekick Rick Jones e de
uma rapariga chamada Cindy Adams, que ficou traumatizada pela morte
de um Espectro ficando com as memórias deste na mente dela. Quanto
aos super heróis da Marvel foram nada menos que uns 90 a marcar
presença no livro, desde a Força Imperial de Shiar aos heróis de
Xandar, passando por heróis terrestres de segunda linha como Valete
de Copas ou Homem Formiga a heróis como Capitão América
e os X-Men.

Rom encara os X-Men |
Claro que muitos destes encontros obedeceram à ordem
suprema dos quadrinhos, dois heróis encontram-se e defrontam-se após um
mal entendido sendo que no fim se unem para enfrentar uma ameaça em comum.
Claro que ROM também teve a sua quota-parte de encontros com Super
Vilões desde a raça dos Skrulls, passando pela Irmandade dos
Mutantes e até arautos do Galactus.
A saga deste
herói acabou em grande, envolvendo muitos dos heróis deste universo. E
sem a participação de alguns deles, como o mutante Forge, o nosso
planeta corria risco de ser substituído pelo planeta dos Espectros,
já que estes queriam substituir a Terra e tomar o lugar do mesmo
na órbita com o nosso sol. Mas ROM, unindo os seus esforços com
os do governo Norte-Americano e com quase todos os grandes super heróis
da Terra, conseguiu banir todo a raça e o seu planeta para o Limbo acabando
assim com a ameaça dos mesmos. Mas não pensem que o fim foi bonito, longe
disso, já que todos os habitantes de Clairton a quem ROM
se tinha habituado a chamar de amigos, foram assassinados pelos Espectros
inclusive o seu parceiro Torpedo.

Galactus chega a Galador |
ROM decide então ir à procura do seu planeta,
que havia sido tirado de órbita pelo todo-poderoso
Galactus, dando
essa a razão a
Brandy (convenientemente a única sobrevivente da
cidade) já que, após o encontro de
Galactus com o seu planeta,
a humanidade de
ROM tinha sido comprometida e este pensava nunca
mais voltar a ser humano de novo. A moça não tinha ficado satisfeita e,
movida pelo amor que sentia pelo Cavaleiro do Espaço, decide pedir ao
omnipotente
Beyonder que lhe desse poderes semelhantes de modo
a poder acompanhar o seu amado em pé de igualdade e ficar junto dele.
Beyonder levou isso à letra e enviou-a para o
planeta de origem de ROM, onde ela descobriu que os humanóides
de lá haviam sido extintos devido a uma segunda geração de Cavaleiros
do Espaço que se havia tornado maligna. Com a ajuda de ROM
e um pequeno grupo dos originais Cavaleiros do Espaço eles conseguem
derrotar as suas contra-partes malignas e ficar com o planeta só para
eles.
Após uma solução milagrosa para ROM recuperar
a sua humanidade (esta estava contida numa esfera de energia que após
o toque do herói fez este recuperar a sua humanidade), este e Brandy
decidem tomar a responsabilidade de repovoar o planeta (missão penosa)
enquanto que o restante grupo dos Cavaleiros do Espaço tomava a
missão de guardar o espaço.

Superalmanaque Marvel #1 |
E assim chegou ao fim uma saga que no geral teve bastantes
pontos positivos e uma história que empolgou e emocionou muitos leitores.
Uma saga que durou muito mais do que inicialmente previsto devido ao sucesso
da mesma junto do público e que ainda hoje tem algum peso nas sagas da
editora Norte-Americana.
É o caso da personagem Hybrid que depois das páginas
de ROM, pode ser encontrado também na recente saga da Marvel,
Civil War. ROM chegou a aparecer também em diferentes cameos,
como aquando do casamento do seu amigo Rick Jones com a Marlo.
No Brasil,
a Abril Jovem aproveitou o trabalho que vinha publicando da dupla
Mantlo/Buscema na revista do Incrível Hulk e, numa jogada
esperta, joga a saga do Rom no mix da revista. Estava criado mais
um clássico no Brasil, já que os fãs abraçaram as aventuras e a mesma
se tornou um sucesso até o seu culminar numa das grandes apostas da editora
brasileira, a revista Superalmanaque Marvel, que teve logo no seu
#1 o fim desta saga. Foi uma despedida em beleza para uma saga que merecia
ter terminado assim mesmo, num especial, e não apenas na revista de linha
onde era publicada.
Nota 7 em 10.