Lobo Solitário e Filhote
Dois
homens conversam. O local? Um quarto escuro, mal iluminado por apenas uma
vela. Os homens falam sobre o assassinato de um poderoso Daymio. Vemos agora
um dia ensolarado. Um homem anda com um carrinho de bebê pelas ruas
da província de Shima. No carrinho, uma bandeira escrita “Filho
de Aluguel. Espada de Aluguel. Escola Suio, Itto Ogami”. Vários
samurais observam... Itto Ogami... Ogami?... Okami... Lobo... Samurai... quem
será? Mas afinal, quem se importa? Acham que é só mais
um vagabundo com um bebê em um carrinho.
Mais a frente, outros samurais recebem um aviso
de seu espião: Um samurai assassino está chegando para acabar
com a vida de seu Daymio. Tal assassino possui vários nomes, sendo mais
conhecido pela alcunha de Lobo Solitário e Filhote.
Ogami é então emboscado pelos
samurais de Shima. Uma furiosa luta se inicia. Ele vence rapidamente a primeira
leva de inimigos, mas outros apareceriam. Ele decide fugir, descendo uma íngreme
colina subindo no carrinho. Ao ver uma águia, ele protege os olhos do
filho com um pano e pula do carrinho, mas é cegado pela poeira do chão
levantada pela águia e acaba capturado.
Levado
à frente do Lorde que supostamente seria seu alvo, o samurai revela uma
estranha prioridade: que seu filho faça xixi. Ele ajuda seu filho a fazer
o que tem a fazer e inicia um diálogo com o Lorde. Ogami revela então
quem é e o que fez. Foi ele próprio quem mandou a mensagem fingindo
ser o espião, e não apenas isso, é o assassino daquele
Lorde! Com um rápido movimento, ele pega a barra que empurrava o carrinho,
destacando-a para transformá-la em uma lança. O arremesso é
certeiro, atingindo a garganta do Daymio, que morre na hora!
Rapidamente uma luta ferrenha começa
entre Ogami e os servos do Lorde, uma luta que logo se revelaria desigual. O
homem conhecido como Lobo Solitário realiza um verdadeiro massacre, usando
uma outra lança destacada do carrinho, atacando e dilacerando seus adversários.
Entretanto, para infelicidade do leitor, a história chega ao final, quando
servos do Daymio que havia contratado Ogami aparecem. Ele então sai,
indo em direção a outro trabalho igualmente sangrento.
A série
O
pequeno texto acima é a base para a história do primeiro capítulo
do Volume I de Lobo Solitário e Filhote, a história “Filho
de Aluguel, Espada de Aluguel”. Os criadores Kazuo Koike e Goseki Kojima
são quem nos relatam essa trama, tão simples em seu centro, ainda
que complexa o bastante para que você não consiga parar de ler.
E a melhor parte: Esta é a sensação em todas as histórias
dos 28 volumes que a Panini Comics deve publicar no Brasil a partir de novembro
desse ano. Aliás, é bom ficar bem claro que esse é o melhor
mangá que já aterrizou em Terras Brasílis, além
de ser o mais significativo desde Akira.
Lobo Solitário e Filhote (Kozure Ookami)
começou a ser publicado no Japão em 1970, sendo concluída
ainda nessa década. Nos EUA, foi publicado pela primeira vez em 1987,
em uma versão incompleta. Recentemente, a Dark Horse republicou a série,
em seus 28 volumes. No Brasil, a história da publicação
de Lobo começa em 1988, passa por várias editoras e finalmente
chega na versão da Dark Horse que vai ser publicada a partir desse ano
pela Panini.
A criatura
Koike
e Kojima criaram uma história desde já imortal. O mote é
simples: um guerreiro samurai viaja pelo Japão feudal à procura
de trabalho, carregando seu filho pequeno a tira colo. Eles são conhecidos
como Lobo Solitário e Filhote. Seus nomes reais: Itto Ogami e Daigorô.
Seu serviço é caro, e ele exige saber o motivo antes de realizar
o trabalho. Se seus empregadores tentarem eliminá-lo, ele os eliminará
antes. Seu filho pequeno eventualmente faz parte dos seus planos para eliminar
seus adversários, de uma forma ou de outra. Um confia o bastante no outro,
sempre, mesmo não havendo muitas palavras na frieza samurai típica
de Ogami.
Ogami era o ceifador oficial do Shogun. Seu
trabalho se dava durante as cerimônias de Harakiri, onde ele desferia
o golpe final no Lorde que morreria. De uma habilidade extrema com a espada,
era invejado por todos e sua posição era cobiçada por muitos.
Em especial, pelo clã Yagiu, cuja posição no Shogunato
era inferior à de Ogami. Para acender na hierarquia, eles decidem realizar
uma trama cruel e perversa, resultando na morte da esposa de Ogami e em sua
incriminação como traidor.
Itto jura então se vingar de todos os
que tramaram contra ele e mataram sua esposa. Ele passa então a ser um
fugitivo, sempre oferecendo seus serviços a quem puder pagar, sejam os
pagadores cruéis ou não, e independente do fato de seus alvos
merecerem ou não a morte.
Os criadores
Koike
é um roteirista fantástico, além de poeta, letrista, pesquisador,
escritor e historiador. Cria diálogos verdadeiramente épicos,
situações incríveis, bem como situações inimagináveis
em histórias intrincadas e muito bem construídas. Não é
a toa que Lobo é tão perfeitamente elaborado. Desde seu personagem
título, passando pela reconstrução perfeita do Japão
feudal, até as técnicas de lutas (aqui apresentadas em sua forma
real), Lobo impressiona pela sua frieza, ainda que emocione ao contar histórias
tocantes de personagens marginais.
Ogami é mostrado como um homem frio,
um lutador cruel, um guerreiro invencível. Mas também como um
pai amoroso e que realmente se importa com seu filho, sempre confiando nele.
Em nenhum momento ele é mostrado como um samaritano, mas sim como um
homem honrado. Ele aceita todo tipo de trabalho, desde que suas regras sejam
respeitadas. Como o homem honrado que é, ele sempre cumpre o que promete
e nunca falha. Sempre que um inocente é posto nas lutas, Ogami se importa
com ele, pois sabe que aquela pessoa não tem nada a ver com o que acontece
naquelas batalhas.
Daigorô
é uma criança incrível. Sempre silencioso, afeiçoa-se
rapidamente por qualquer moça mais velha, talvez para compensar a falta
que sua mãe lhe faz – um traço mostrado com muita sagacidade
por Koike . O Filhote é esperto e sempre demonstra seu amor pelo pai,
algo que fica evidente nos sorrisos amáveis do garoto ao ver o pai após
longos períodos.
A história de Koike não seria
nada sem o traço inteligente e clássico de Kojima. O artista foge
de todos os estereótipos. Seus personagens parecem saltar das páginas.
Você tem a sensação de que eles são realmente japoneses,
não homens e mulheres de olhos grandes e irreais. O realismo de Kojima
continua nos cenários, habilmente desenhados e fantasticamente recriados
historicamente. Como se não bastasse, Kojima é um habilidoso contador
de histórias, cuja narrativa é impecável e se aproveita
de enquadramentos que, ainda que clássicos, permanecem inteligentes e
extremamente bem cuidados. Não apenas isso, ao criar cenas e enquadramentos
clássicos, sua narrativa se torna tão fluida que suas lutas não
necessitam de diálogos. É possível ver toda uma cena de
massacre sem ler qualquer palavra pronunciada, apenas com suas belíssimas
batalhas entre samurais de habilidades extremas!
Influencias
Não obstante, Lobo Solitário é
possivelmente o mangá mais importante de todos os tempos e suas influencias
são várias. A mais importante, possivelmente, é o passado
feudal japonês. As histórias de samurais reais são claras
e óbvias referencias. Personagem reais como Musashi e sua peregrinação
pelo Japão tem uma identificação evidente com Ogami. Os
poemas clássicos e as lendas históricas também tem vez.
Outras referencias são artistas modernos de mangá, como Osamu
Tezkua, entre outros.
Influenciados
No
Japão...
Qualquer história de samurais. Lobo ficou
famoso por ter sido a primeira história de samurais cujo contexto histórico
e linguagem excepcional ajudaram a popularizar de novo os guerreiros feudais,
despertando renovado interesse por toda a cultura samurai. Daí nasceu
um novo interesse por Musashi que levou à popularização
da obra que conta sua história. Lobo Solitário é tão
importante que chega a ser mais popular que o samurai real, tendo mais filmes
e seriados. Qualquer mangá cujo mote é "samurai-peregrino"
tem sua origem aqui.
Fora do Japão...
Frank Miller é possivelmente o artista
que mais foi influenciado pela obra japonesa. Foi ele quem ajudou a levar a
obra aos EUA, transformando-a na primeira obra japonesa a ser traduzida para
o inglês. Não apenas isso, Miller levou aos EUA o estilo de narrativa
japonesa, transformando suas histórias em verdadeiras homenagens aos
mangás. Seu auge nesse aspecto está nas histórias de Demolidor,
na minissérie épica Ronin (relançada recentemente no Brasil
pela Opera Graphica), e nos especiais Elektra Saga e Wolverine - Dívida
de Honra (republicada em outrubro pela Panini Comics). Todas essas histórias
têm em comum a forte influencia japonesa, seja na narrativa, enquadramento
ou no traço (que lembra muito o traço de Kojima). A própria
Elektra possui habilidades claramente inspiradas em Lobo.
Não
fosse o bastante ter sido a primeira obra a ser publicada fora do Japão,
Lobo ainda abriu espaço para a segunda obra a ser lançada fora
de seu país de origem: Akira, de Katsuhiro Otomo. Precisa dizer mais?
Na TV e no Cinema, personagens como as Tartarugas
Ninjas e Samurai Jack têm muito a agradecer a Lobo, em especial o segundo.
Diversas vezes a animação já homenageou o mangá
clássico, não sem razão, afinal é sua influência
principal. Na tela grande, Tarantino em Kill Bill faz mais de uma referencia
a Lobo (em especial no Volume 2).
Finalmentes
Então é isso. Lobo Solitário
e Filhote, a obra prima do mangá, de Kazuo Koike e Goseki Kojima está
sendo finalmente relançado no Brasil, pela primeira vez na forma como
foi publicada originalmente, em volumes de 300 páginas. A edição,
que é baseada na versão americana da Dark Horse, conta ainda com
capas de gente do calibre de Frank Miller, Bill Sienkiewicz entre outros. O preço
é R$ 12,90. Vale a pena conferir.
por Zander "Zed Mako" Pazini