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Especial: Lobo Solitário
© LeandroMagnus

Lobo Solitário e Filhote

Dois homens conversam. O local? Um quarto escuro, mal iluminado por apenas uma vela. Os homens falam sobre o assassinato de um poderoso Daymio. Vemos agora um dia ensolarado. Um homem anda com um carrinho de bebê pelas ruas da província de Shima. No carrinho, uma bandeira escrita “Filho de Aluguel. Espada de Aluguel. Escola Suio, Itto Ogami”. Vários samurais observam... Itto Ogami... Ogami?... Okami... Lobo... Samurai... quem será? Mas afinal, quem se importa? Acham que é só mais um vagabundo com um bebê em um carrinho.

Mais a frente, outros samurais recebem um aviso de seu espião: Um samurai assassino está chegando para acabar com a vida de seu Daymio. Tal assassino possui vários nomes, sendo mais conhecido pela alcunha de Lobo Solitário e Filhote.

Ogami é então emboscado pelos samurais de Shima. Uma furiosa luta se inicia. Ele vence rapidamente a primeira leva de inimigos, mas outros apareceriam. Ele decide fugir, descendo uma íngreme colina subindo no carrinho. Ao ver uma águia, ele protege os olhos do filho com um pano e pula do carrinho, mas é cegado pela poeira do chão levantada pela águia e acaba capturado.

Levado à frente do Lorde que supostamente seria seu alvo, o samurai revela uma estranha prioridade: que seu filho faça xixi. Ele ajuda seu filho a fazer o que tem a fazer e inicia um diálogo com o Lorde. Ogami revela então quem é e o que fez. Foi ele próprio quem mandou a mensagem fingindo ser o espião, e não apenas isso, é o assassino daquele Lorde! Com um rápido movimento, ele pega a barra que empurrava o carrinho, destacando-a para transformá-la em uma lança. O arremesso é certeiro, atingindo a garganta do Daymio, que morre na hora!

Rapidamente uma luta ferrenha começa entre Ogami e os servos do Lorde, uma luta que logo se revelaria desigual. O homem conhecido como Lobo Solitário realiza um verdadeiro massacre, usando uma outra lança destacada do carrinho, atacando e dilacerando seus adversários. Entretanto, para infelicidade do leitor, a história chega ao final, quando servos do Daymio que havia contratado Ogami aparecem. Ele então sai, indo em direção a outro trabalho igualmente sangrento.

A série

O pequeno texto acima é a base para a história do primeiro capítulo do Volume I de Lobo Solitário e Filhote, a história “Filho de Aluguel, Espada de Aluguel”. Os criadores Kazuo Koike e Goseki Kojima são quem nos relatam essa trama, tão simples em seu centro, ainda que complexa o bastante para que você não consiga parar de ler. E a melhor parte: Esta é a sensação em todas as histórias dos 28 volumes que a Panini Comics deve publicar no Brasil a partir de novembro desse ano. Aliás, é bom ficar bem claro que esse é o melhor mangá que já aterrizou em Terras Brasílis, além de ser o mais significativo desde Akira.

Lobo Solitário e Filhote (Kozure Ookami) começou a ser publicado no Japão em 1970, sendo concluída ainda nessa década. Nos EUA, foi publicado pela primeira vez em 1987, em uma versão incompleta. Recentemente, a Dark Horse republicou a série, em seus 28 volumes. No Brasil, a história da publicação de Lobo começa em 1988, passa por várias editoras e finalmente chega na versão da Dark Horse que vai ser publicada a partir desse ano pela Panini.

A criatura

Koike e Kojima criaram uma história desde já imortal. O mote é simples: um guerreiro samurai viaja pelo Japão feudal à procura de trabalho, carregando seu filho pequeno a tira colo. Eles são conhecidos como Lobo Solitário e Filhote. Seus nomes reais: Itto Ogami e Daigorô. Seu serviço é caro, e ele exige saber o motivo antes de realizar o trabalho. Se seus empregadores tentarem eliminá-lo, ele os eliminará antes. Seu filho pequeno eventualmente faz parte dos seus planos para eliminar seus adversários, de uma forma ou de outra. Um confia o bastante no outro, sempre, mesmo não havendo muitas palavras na frieza samurai típica de Ogami.

Ogami era o ceifador oficial do Shogun. Seu trabalho se dava durante as cerimônias de Harakiri, onde ele desferia o golpe final no Lorde que morreria. De uma habilidade extrema com a espada, era invejado por todos e sua posição era cobiçada por muitos. Em especial, pelo clã Yagiu, cuja posição no Shogunato era inferior à de Ogami. Para acender na hierarquia, eles decidem realizar uma trama cruel e perversa, resultando na morte da esposa de Ogami e em sua incriminação como traidor.

Itto jura então se vingar de todos os que tramaram contra ele e mataram sua esposa. Ele passa então a ser um fugitivo, sempre oferecendo seus serviços a quem puder pagar, sejam os pagadores cruéis ou não, e independente do fato de seus alvos merecerem ou não a morte.

Os criadores

Koike é um roteirista fantástico, além de poeta, letrista, pesquisador, escritor e historiador. Cria diálogos verdadeiramente épicos, situações incríveis, bem como situações inimagináveis em histórias intrincadas e muito bem construídas. Não é a toa que Lobo é tão perfeitamente elaborado. Desde seu personagem título, passando pela reconstrução perfeita do Japão feudal, até as técnicas de lutas (aqui apresentadas em sua forma real), Lobo impressiona pela sua frieza, ainda que emocione ao contar histórias tocantes de personagens marginais.

Ogami é mostrado como um homem frio, um lutador cruel, um guerreiro invencível. Mas também como um pai amoroso e que realmente se importa com seu filho, sempre confiando nele. Em nenhum momento ele é mostrado como um samaritano, mas sim como um homem honrado. Ele aceita todo tipo de trabalho, desde que suas regras sejam respeitadas. Como o homem honrado que é, ele sempre cumpre o que promete e nunca falha. Sempre que um inocente é posto nas lutas, Ogami se importa com ele, pois sabe que aquela pessoa não tem nada a ver com o que acontece naquelas batalhas.

Daigorô é uma criança incrível. Sempre silencioso, afeiçoa-se rapidamente por qualquer moça mais velha, talvez para compensar a falta que sua mãe lhe faz – um traço mostrado com muita sagacidade por Koike . O Filhote é esperto e sempre demonstra seu amor pelo pai, algo que fica evidente nos sorrisos amáveis do garoto ao ver o pai após longos períodos.

A história de Koike não seria nada sem o traço inteligente e clássico de Kojima. O artista foge de todos os estereótipos. Seus personagens parecem saltar das páginas. Você tem a sensação de que eles são realmente japoneses, não homens e mulheres de olhos grandes e irreais. O realismo de Kojima continua nos cenários, habilmente desenhados e fantasticamente recriados historicamente. Como se não bastasse, Kojima é um habilidoso contador de histórias, cuja narrativa é impecável e se aproveita de enquadramentos que, ainda que clássicos, permanecem inteligentes e extremamente bem cuidados. Não apenas isso, ao criar cenas e enquadramentos clássicos, sua narrativa se torna tão fluida que suas lutas não necessitam de diálogos. É possível ver toda uma cena de massacre sem ler qualquer palavra pronunciada, apenas com suas belíssimas batalhas entre samurais de habilidades extremas!

Influencias

Não obstante, Lobo Solitário é possivelmente o mangá mais importante de todos os tempos e suas influencias são várias. A mais importante, possivelmente, é o passado feudal japonês. As histórias de samurais reais são claras e óbvias referencias. Personagem reais como Musashi e sua peregrinação pelo Japão tem uma identificação evidente com Ogami. Os poemas clássicos e as lendas históricas também tem vez. Outras referencias são artistas modernos de mangá, como Osamu Tezkua, entre outros.

Influenciados

No Japão...

Qualquer história de samurais. Lobo ficou famoso por ter sido a primeira história de samurais cujo contexto histórico e linguagem excepcional ajudaram a popularizar de novo os guerreiros feudais, despertando renovado interesse por toda a cultura samurai. Daí nasceu um novo interesse por Musashi que levou à popularização da obra que conta sua história. Lobo Solitário é tão importante que chega a ser mais popular que o samurai real, tendo mais filmes e seriados. Qualquer mangá cujo mote é "samurai-peregrino" tem sua origem aqui.

Fora do Japão...

Frank Miller é possivelmente o artista que mais foi influenciado pela obra japonesa. Foi ele quem ajudou a levar a obra aos EUA, transformando-a na primeira obra japonesa a ser traduzida para o inglês. Não apenas isso, Miller levou aos EUA o estilo de narrativa japonesa, transformando suas histórias em verdadeiras homenagens aos mangás. Seu auge nesse aspecto está nas histórias de Demolidor, na minissérie épica Ronin (relançada recentemente no Brasil pela Opera Graphica), e nos especiais Elektra Saga e Wolverine - Dívida de Honra (republicada em outrubro pela Panini Comics). Todas essas histórias têm em comum a forte influencia japonesa, seja na narrativa, enquadramento ou no traço (que lembra muito o traço de Kojima). A própria Elektra possui habilidades claramente inspiradas em Lobo.

Não fosse o bastante ter sido a primeira obra a ser publicada fora do Japão, Lobo ainda abriu espaço para a segunda obra a ser lançada fora de seu país de origem: Akira, de Katsuhiro Otomo. Precisa dizer mais?

Na TV e no Cinema, personagens como as Tartarugas Ninjas e Samurai Jack têm muito a agradecer a Lobo, em especial o segundo. Diversas vezes a animação já homenageou o mangá clássico, não sem razão, afinal é sua influência principal. Na tela grande, Tarantino em Kill Bill faz mais de uma referencia a Lobo (em especial no Volume 2).

Finalmentes

Então é isso. Lobo Solitário e Filhote, a obra prima do mangá, de Kazuo Koike e Goseki Kojima está sendo finalmente relançado no Brasil, pela primeira vez na forma como foi publicada originalmente, em volumes de 300 páginas. A edição, que é baseada na versão americana da Dark Horse, conta ainda com capas de gente do calibre de Frank Miller, Bill Sienkiewicz entre outros. O preço é R$ 12,90. Vale a pena conferir.

por Zander "Zed Mako" Pazini


por Cajun em 16/11/2004:
Excelente matéria! Fiquei com muita vontade de adquirir.
por retrohq em 18/01/2008:
Sem muitos comentários, Lobo Solitário é o melhor mangá que ja lí!!! Abraços!
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